Democratas e a eleição presidencial de 2010
Valor Econômico - 18 de março de 2009
Um aliado com muito mais poder ofensivo
O DEM tem acusado uma perda progressiva de seu eleitorado tradicional no Nordeste e, embora tenha conseguido espaço em São Paulo em 2008, com a vitória do prefeito de São Paulo, Gilberto Kassab, em uma aliança com o PSDB, não avançou no Sudeste o suficiente para compensar os votos perdidos nos Estados mais pobres do país. O partido está numa encruzilhada. Com perfis tradicionais de eleitores e políticos, a legenda precisa voltar ao poder federal para interromper um processo de perdas eleitorais. Não tem estrutura nacional, votos ou líderes para vencer, ela própria, uma eleição para a Presidência da República - inclusive porque as eleições têm sido polarizadas, desde 1994, entre PSDB e o PT. O DEM tem uma personalidade ideológica própria, que o torna um adversário natural do PT. A aliança com o PSDB não é, portanto, uma questão de vontade, mas um imperativo de sobrevivência.
Os últimos movimentos do DEM indicam que, na falta de condições para trilhar em voo solo o caminho ao poder, não poupará esforços para conseguir isso por meio da ascensão do PSDB. O primeiro passo foi abrir mão da candidatura à vice-presidência. Nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso, o então PFL manteve como segundo no comando do país a figura discreta do senador Marco Maciel (PE). Nessas eleições, os líderes do DEM já declararam publicamente que deixam o cargo vago, para o PSDB acomodar interesses de outros aliados. No cálculo do partido conservador, a adesão do PMDB, partido para o qual seria oferecida a vice de uma chapa tucana, seria uma vantagem a mais numa disputa contra o PT de Lula.
O outro movimento importante do partido conservador foi o de aproximação com o governador de Minas, Aécio Neves, que disputa com o governador paulista, José Serra, a indicação do PSDB para a candidatura à Presidência. Em reunião com o governador tucano, que deverá ocorrer hoje, a direção nacional do ex-PFL deverá deixar claro que, antes de uma aliança com Serra, interessa ao partido uma coligação com o PSDB, qualquer que seja o candidato. E que, nas eleições do ano que vem para o governo do Estado, Aécio terá o apoio do DEM mineiro para eleger o candidato à sua sucessão ("DEM apoiará candidato de Aécio em Minas", Valor, 17/3). Um aceno antecipado de boa vontade.
Internamente, os líderes tucanos têm um diagnóstico claro da derrota tucana nas eleições de 2002 e 2006 e tentam interferir no processo de 2010 para evitar nova catástrofe eleitoral. Na avaliação deles, o PSDB, dividido, não tem chances de vencer o PT, mesmo que para isso conte com o apoio eleitoral do DEM e, eventualmente, do PMDB. Foi o PSDB dividido que viu Serra derrotado na disputa contra Lula, em 2002; e foi a divisão tucana que derrotou o candidato anti-Lula em 2008, Geraldo Alckmin. Mais do que isso, nas eleições de 2010 o que está em jogo, quando o PSDB se divide ao meio, é o segundo maior colégio eleitoral do país, Minas Gerais. Um Aécio rompido com o PSDB tem um potencial enorme de estrago na coligação oposicionista, pela influência que tem sobre os votos mineiros.
A composição dos dois pré-candidatos tucanos, Serra e Aécio, é a prioridade das lideranças do DEM em 2009. Ele pressionaram os líderes tucanos a esvaziarem as pressões de Aécio por uma prévia partidária - prometendo prévia ao governador mineiro. Também tomam a iniciativa de reincluir Aécio nas articulações nacionais, quando garantem ao pré-candidato que a preferência do partido conservador não é pela candidatura de Serra, mas por qualquer candidatura tucana. O isolamento de Aécio, nesse momento, é um incentivo à divisão e ao conflito.
Em 2002 e 2006, ao se eximirem de interferir nas questões internas do PSDB, os líderes do DEM acabaram abrindo mão das suas próprias estratégias de poder para amargarem uma derrota abraçados ao seu aliado, o PSDB. Ao que tudo indica, o partido está mudando a forma de agir nessas eleições: tem assumido a ofensiva para unir interesses internos dos tucanos e de se antecipar às necessidades da futura coligação, abrindo espaço para outros aliados. Em 2010, os tucanos terão um aliado mais ofensivo, mesmo sem dividir oficialmente a chapa. Mas será um aliado, certamente, com muito mais poder de partilhar posições.




